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Venda de sêmen Angus retoma crescimento no Brasil e aponta novo ciclo de valorização da genética

Em 2024, o mercado começou a reagir, com leve alta de 1,48%, antes de acelerar de forma significativa em 2025. Foto: Divulgação / Associação Brasileira de Angus

Após um período de retração, o mercado brasileiro de sêmen Angus voltou a crescer de forma consistente e encerrou 2025 com um avanço expressivo de 31,19% em relação ao ano anterior. Os dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA) mostram que foi a terceira maior comercialização da história da raça no país. O desempenho reforça a retomada de um ciclo positivo, impulsionado pela demanda por carne de qualidade e pela reorganização da pecuária nacional nos últimos anos, que tende a continuar em 2026.

O movimento recente de comercialização contrasta com o cenário observado entre 2021 e 2023. Depois de um recorde histórico em 2020, as vendas de sêmen Angus registraram três anos consecutivos de queda, acumulando retração de 38,06% até 2023. Em 2024, o mercado começou a reagir, com leve alta de 1,48%, antes de acelerar de forma significativa em 2025.

Para o presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, esse novo momento está diretamente ligado à valorização da carne de qualidade no mercado internacional. Segundo ele, a genética Angus se tornou peça-chave para agregar valor à produção brasileira, especialmente no cruzamento com matrizes Nelore. “Quando se agrega qualidade à carne, o valor praticamente dobra na exportação”, destaca. Na sua avaliação, a forte demanda interna e externa já gera, inclusive, escassez de animais meio-sangue Angus no mercado.

Esse avanço ocorre em paralelo ao próprio comportamento do setor de inseminação no país. Após o recorde geral de doses de sêmen de corte comercializadas em 2021, o mercado passou por ajustes, com quedas em 2022 (-9,33%) e 2023 (-5,40%), antes de retomar crescimento em 2024 (+2,77%) e ganhar força em 2025 (+7,95%).

A diretora da ASBIA, Lilian Matimoto, explica que esse movimento acompanha o ciclo pecuário e a dinâmica de preços da arroba e do bezerro. Na visão dela, o aumento no valor do bezerro leva o pecuarista a reagir investindo mais em genética, em busca de produtividade e eficiência. Trata-se de algo historicamente observado e que ajuda a explicar tanto o pico de vendas em 2021 quanto a retomada iniciada no segundo semestre de 2024 e consolidada ao longo de 2025. “É um comportamento reativo ao mercado: quando o insumo encarece, cresce o interesse por produtividade e qualidade”, afirma. 

O crescimento ligado à carne premium

Outro fator determinante para o avanço da genética Angus é o fortalecimento da certificação de carne de qualidade. Segundo Maychel Borges, gerente do Programa Carne Angus Certificada, há uma relação direta entre a expansão da iniciativa e a venda de sêmen. Na prática, trata-se de um ciclo de retroalimentação: o crescimento do programa estimula a demanda por genética, enquanto a maior oferta de animais é essencial para sustentar a expansão da certificação.

Na avaliação dele, a base desse sistema está na Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), responsável pela maioria dos animais que chegam ao programa. Borges ressalta que o setor já sentiu os efeitos negativos da queda nas vendas de sêmen anos atrás e que, por isso, hoje há um esforço maior de proximidade com os produtores para garantir oferta de matéria-prima. “Sem genética, não há como sustentar o crescimento da carne Angus”, resume.

O avanço da IATF, aliás, é um dos pilares dessa transformação. Em 2025, segundo Lilian Matimoto, da ASBIA, a técnica respondeu por mais de 90% das inseminações realizadas no Brasil, contribuindo para ganhos de escala e eficiência na produção.

Do ponto de vista econômico, o movimento atual também reflete mudanças estruturais no rebanho brasileiro. Segundo Thiago Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a queda nas vendas de sêmen Angus nos anos anteriores esteve ligada à necessidade de recomposição do rebanho Nelore, após um período de abate elevado de fêmeas. Agora, com essa recomposição mais avançada, o mercado volta a demandar genética voltada à qualidade de carne.

Ele observa ainda que houve um amadurecimento do setor, com produtores mais preparados para trabalhar com cruzamento industrial. Esse cenário, combinado à maior exigência do consumidor, tem elevado a procura por animais com sangue Angus e contribuído para uma valorização diferenciada desses produtos no mercado.

Momento ímpar no campo e no mercado

No campo, essa percepção é confirmada pelos criadores. Para Valdomiro Poliselli Júnior, o momento atual é de forte aquecimento, com centrais de inseminação mais ativas e demanda crescente por touros Angus. Ele destaca que há encomendas represadas e até filas de espera, reflexo direto da busca por animais que atendam aos padrões exigidos por frigoríficos e mercados internacionais. “É um momento ímpar, com muita procura e confiança no mercado”, afirma.

Regionalmente, o avanço da genética Angus também reflete a expansão geográfica da raça. Em 2025, o Centro-Oeste liderou a comercialização de sêmen Angus, concentrando mais de 50% do total, seguido pelas regiões Sul, Norte, Sudeste e Nordeste. O protagonismo do Centro-Oeste está diretamente ligado à consolidação do cruzamento entre Angus e Nelore, que levou a raça a regiões onde antes tinha presença limitada.

Com a abertura de novos mercados internacionais, maior exigência por qualidade e evolução das tecnologias reprodutivas, a expectativa do setor é de continuidade no crescimento. Ainda que fatores como cenário político e oscilações de mercado possam influenciar o ritmo, a base estrutural aponta para um ambiente favorável à expansão da genética Angus no Brasil.

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