O ano de 2022 registrou recorde de pedidos de refúgio de cubanos no Brasil. Conforme dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), de janeiro a novembro, foram 4.241 solicitações de cubanos, número que supera os registros anteriores à pandemia de Covid-19. Cuba vive uma das piores etapas da crise econômica crônica, que foi agravada pela queda da receita do turismo na pandemia e pela reforma cambial conduzida pelo regime. Mesmo os cubanos com ensino superior e bons empregos afirmam perda drástica no poder de consumo.
O Brasil se tornou uma alternativa para os que decidem tentar uma nova vida em outro país. Entre os motivos estão ser um destino mais acessível que os Estados Unidos, onde restrições na fronteira dificultam o ingresso de cubanos. Também o fato de muitos cubanos possuírem familiares ou amigos no Brasil devido ao programa Mais Médicos. É o caso do advogado cubano Yens Hernández Argote, 43 anos, que desde fevereiro de 2022 reside com a mulher e as duas filhas em São Pedro do Sul. “Conseguimos vir para cá através da minha irmã que é médica nesta cidade, então fizemos a papelada legal e fomos aprovados na Embaixada do Brasil em Cuba” afirma ele

Yens é natural da província de Guantánamo, que é a mais oriental das 15 províncias de Cuba e a mais distante de Havana, que é a capital. “É a província menos desenvolvida e menos beneficiada em todos os sentidos, seu povo é muito solidário. Ela é conhecida mundialmente porque abriga uma Base Naval dos Estados Unidos da América”, destaca ele.
O advogado afirma que há muitos anos desejava sair de Cuba, pois não concordava com o sistema político, econômico e social vigente, segundo ele, sem possibilidade de mudança. “Tendo em vista que minha irmã, minha mãe e minha sobrinha já residiam aqui, conseguimos vir para o Brasil e hoje estamos no processo de “Refúgio” para finalmente sermos cidadãos brasileiros, que é o que mais almejamos para termos todos os direitos respaldados pela Constituição Federal e, assim, uma vida mais ativa em benefício dessa sociedade em que vivemos. Somos infinitamente gratos por nos terem aberto as portas”, ressalta Yens.
Ele destaca que a realidade para quem mora em Cuba está cada vez mais difícil. “Basicamente é uma vida de sobrevivência. O dia a dia se resume na necessidade de obter alimentos, medicamentos e os demais produtos básicos para sobreviver. Com quase nenhum alimento e medicamentos e uma das maiores inflações econômicas do mundo, o nível de pobreza subiu para níveis insuspeitos. Para que as pessoas possam comprar alimentos, medicamentos, etc, elas têm que ficar em longas filas por várias horas e isso não garante que elas possam comprar. É preciso ter moedas de outros países, como dólares americanos, euros, etc., porque o peso cubano está muito desvalorizado. Além disso, aqueles que não recebem remessas de parentes que moram no exterior têm mais trabalho e necessidade do que outros. Em suma, podemos dizer que a vida dos meus compatriotas é de sobrevivência e se tornou um inferno”, lamenta o cubano.
Sobre o atual sistema político de Cuba, Yens afirma que ele é contrário a imagem que o governo tenta transmitir como a de um país de justiça e igualdade social “Cuba tem um regime socialista ou comunista há 64 anos, que limita as liberdades individuais, políticas e econômicas de seus cidadãos. É um sistema que tem amplo poder e controle sobre seus habitantes, que permite que eles saibam tudo sobre você e usem isso para chantageá-lo nos casos que consideram necessários. Também não há liberdade política, não há eleições livres. O sistema democrático é inexistente, uma vez que as pessoas não podem filiar-se a partidos políticos, a menos que seja o Partido Comunista que é o único que existe legalmente, os outros são proibidos. É um sistema político que reprime, aprisiona e exila aqueles que pensam e se manifestam de forma diferente da posição oficial”, relata.
Em São Pedro do Sul Yens e a família precisaram se adaptar a uma nova realidade, com idioma, costumes, cultura e clima diferentes. Ele afirma que as filhas se adaptaram bem nas novas escolas. “Hoje minhas filhas estudam na Escola Estadual Firmino Cardoso Junior, depois de terem passado pela Escola Municipal Rosa Lazzarotto Arboitte. Ajudou muito ter começado a escola no mesmo mês de fevereiro quando chegamos. Elas interagiram com os outros colegas e professores e aprenderam a língua sem dificuldade. Além disso, ter um ambiente escolar saudável e mais desenvolvido do ponto de vista material chamou a atenção delas e permitiu se adaptarem rapidamente. Acho que as crianças têm essa vantagem sobre nós adultos. Somos muito gratos à direção e aos professores de ambas as escolas pelo grande trabalho que fazem e pela dedicação que sempre demonstram”, destaca o cubano.
Para ele e a esposa, a adaptação no Brasil foi um pouco mais difícil, principalmente no âmbito profissional. “Sou advogado e toda a minha vida profissional esteve nessa profissão durante 15 anos, pelo que já tinha algum reconhecimento e prestígio perante os meus colegas e clientes. Minha esposa é formada na universidade como Assistente Social de Saúde e também tem um técnico intermediário em Contabilidade. Aqui, tendo que começar do zero, tivemos que fazer trabalhos aos quais não estávamos adaptados. Então o processo de reintegração foi duro e forte, mas graças a Deus já estamos focados nas coisas que queremos e entendemos melhor a dinâmica e os costumes dessa cidade”, afirma Yens.
Atualmente ele atua como microempreendedor, trabalhando como pizzaiolo há um ano. “Minha esposa e eu decidimos começar esse negócio familiar e legalizamos aproveitando a liberdade econômica que o país oferece. Abrimos uma pizzaria e vendemos nossos próprios produtos que fomos diversificando e que foram bem aceitos”, relata.
Conforme Yens a nova profissão tem sido um desafio e um processo de aprendizado constante para ele e a esposa. “ Há muita concorrência e uma dinâmica econômica totalmente diferente da que existe em Cuba. Isso nos fez estudar muito, aprimorar e adaptar a essa nova realidade. Para sermos competitivos e sobrevivermos em uma economia tão dinâmica tivemos que fazer todos os ajustes possíveis na hora. Mas para conseguir tudo isso dedicamos muito tempo ao nosso trabalho, que apesar de pequeno precisa de muita atenção da nossa parte”, afirma.
Yens comemora a vinda para São Pedro.“Para nós tem sido um privilégio poder viver nesta cidade porque é tranquila e segura. Além disso, a grande maioria de seu povo nos demonstrou seu afeto e amor por nós, e nos apoiou material e espiritualmente” finaliza. Por Andressa Scherer Tormes


































