A Secretaria Municipal de Cultura e os museus de São Pedro do Sul intensificaram, nos últimos anos, os esforços para repatriar materiais arqueológicos provenientes das escavações realizadas no Sítio Arqueológico Abrigo da Pedra Grande (RS-SM-07). O pedido envolve especialmente os objetos coletados nas pesquisas das décadas de 1970 e 1990, atualmente sob guarda do Laboratório de Arqueologia da PUC-RS.
Entre os itens está o conjunto de artefatos associados à Redução de São José do Itaquaty (1ª fase), vestígios que ajudam a contar um capítulo importante da presença missioneira no município. Para a equipe local, após cerca de cinco décadas dedicadas a estudos e pesquisas na instituição universitária, chegou o momento de esse acervo retornar ao seu território de origem.
“São objetos que fazem parte da nossa história. Somos missioneiros, e faremos tudo o que estiver ao nosso alcance, dentro da legalidade, para trazê-los de volta”, destaca a diretora dos museus municipais, Francis Schirrmann Silveira.
Segundo Francis, quando o material foi encaminhado para pesquisa, há cerca de 50 anos, o município realmente não possuía estrutura adequada para armazenar, conservar e estudar este material. “Naquela época, o correto e necessário era que o material fosse para uma instituição de pesquisa. Hoje a realidade é outra: temos estrutura, equipe técnica e condições legais para assumir essa guarda”, afirma.
O Museu Paleontológico e Arqueológico Professor Walter Ilha, responsável pela solicitação, integra o Cadastro Nacional de Instituições de Guarda e Pesquisa (CNIGP) e está oficialmente apto a receber acervos arqueológicos. No Rio Grande do Sul, existem 33 instituições cadastradas entre esferas federal, estadual, municipal e privada — mas apenas 13 estão aptas para receber materiais. No recorte das instituições municipais, o número é ainda mais restrito: das 10 cadastradas no estado, somente 3 estão habilitadas, e uma delas é o Museu Walter Ilha.
Um sítio único no Sul do Brasil
O Sítio Arqueológico Abrigo da Pedra Grande é considerado um dos mais importantes do estado. No local está o maior painel de inscrições rupestres do Sul do Brasil, com registros de ocupações humanas que remontam a pelo menos 3 mil anos. A Redução de São José do Itaquaty representa uma das fases mais recentes dessa ocupação, datada do período entre 1633 e 1637/1638, quando aproximadamente 600 famílias Guarani viveram na região junto aos padres jesuítas.
As pesquisas indicam que, na parte posterior da formação rochosa conhecida como Pedra Grande, existiu um núcleo ligado a essa redução missioneira. Informações detalhadas, imagens e estudos sobre o sítio podem ser acessados no portal pedragrande.art.br, que reúne conteúdos históricos e científicos sobre o local.
Centro de Interpretação reforça pedido de retorno
O movimento pela repatriação também está diretamente ligado à construção do Centro de Interpretação da Redução de São José, em São Pedro do Sul. O espaço integra as ações comemorativas dos 400 anos das Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul e tem a proposta de ser mais do que um atrativo turístico.
“O Centro de Interpretação é um marco para nós. Ele representa a possibilidade de São Pedro do Sul se tornar um centro arqueológico de referência no estado”, explica Francis. “É a valorização da nossa história, mas também geração de oportunidades, de pesquisa, de formação e trabalho para os nossos jovens.”
Para a diretora, o novo espaço permitirá que a história local seja contada com base em evidências materiais e científicas encontradas no próprio território. “Pela primeira vez em 400 anos, temos a oportunidade de apresentar essa história como ela realmente aconteceu, a partir das provas arqueológicas, e não apenas a partir de narrativas romantizadas ou recortes do território que não correspondem à realidade dos fatos.”
Ela reforça que reconhecer a presença missioneira em São Pedro do Sul não é uma disputa, mas um resgate histórico fundamentado. “Se havia uma redução em nosso município e existem provas concretas disso, por que não valorizar esse patrimônio? Precisamos olhar para a nossa história com mais orgulho e carinho, reconhecer nosso potencial, assim como as pessoas de fora já fazem.”
Patrimônio que retorna à comunidade
Além do valor científico, o retorno do acervo é visto como essencial para fortalecer a educação patrimonial e o sentimento de pertencimento da comunidade. A ideia é que os objetos, hoje restritos a reservas técnicas, passem a integrar exposições, ações educativas e projetos culturais acessíveis à população.
“Nosso trabalho nos museus é diverso, são muitas as demandas, as frentes em que trabalhamos, e também os sonhos que temos, mas seguimos firmes, buscando sempre o melhor para o nosso município, esse é um cuidado que a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Desenvolvimento Economico tem como base fundamental do nosso trabalho. É tudo sempre perfeito, exatamente como gostaríamos? Não, mas fazemos o melhor que podemos, com as ferramentas e a realidade que temos”, conclui Francis. “Todos são bem-vindos! É sempre um prazer abrir as portas dos museus e contar um pouco da nossa história.”
A expectativa da equipe é que, com base na estrutura técnica atual do museu e na importância histórica do acervo, o processo de repatriação avance com sucesso, permitindo que os vestígios da Redução de São José voltem, definitivamente, para casa.















































