O jornalista e professor universitário Carlos André Dominguez, mais conhecido como Cadré, esteve recentemente em Santa Maria para o lançamento do livro de sua autoria Peabiru – Do Atlântico ao Pacífico, pelo mítico caminho sagrado. A obra, que é uma grande reportagem e é resultado de cinco anos de pesquisa, aborda o Caminho do Peabiru, que era utilizado por povos indígenas. “É um caminho pré colonial que existe muito antes da chegada dos europeus no continente. Eu sempre gostei de conhecer a história dos nossos povos ancestrais. Sempre achei a história que é passada e contada, a partir de 1500, para as crianças nas escolas um absurdo, sempre me revoltou como jornalista mesmo. Procurei como jornalista dar voz para essas populações, na medida do possível”, destaca Cadré.

Foi durante a apuração da reportagem chamada “Meiembipe, o Segredo de Sambaqui” que o jornalista ouviu falar pela primeira vez do Caminho do Peabiru, que ia do litoral de Santa Catarina até o Peru. Para a construção da narrativa, além de percorrer parte do caminho, Cadré também realizou diversas entrevistas com pessoas de diferentes áreas do conhecimento, lideranças guaranis, estudiosos autodidatas e pesquisadores. “O livro é fragmentado em pequenos capítulos que mostram parte da trajetória que eu fiz nessa apuração. Embora existam relatos de viagem, ele é um relato da história das pessoas que de alguma forma se relacionam com o Caminho do Peabiru aqui no Brasil ou Qhapaq Ñan, em qéchua, que é a lingua mais falada na região andina, no Peru”, afirma Cadré.
Atualmente Cadré é professor adjunto do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas, na qual atua desde 2016. Ele já lecionou no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria e atuou como jornalista no Diário de Santa Maria. E foi durante seu trabalho como jornalista na região há alguns anos, que Cadré conheceu a Pedra Grande, que fica localizada no interior de São Pedro do Sul. “A pauta era fazer um registro das evidências rupestres na Região Central. De cara surgiu a Pedra Grande e outros dois locais em Dona Francisca e Ivotí”, destaca o professor, que para a realização da reportagem no local esteve acompanhado na época do arqueólogo e professor da UFSM, Saul Milder, falecido no ano de 2014 e que liderava estudos sobre povos que habitavam o Estado.
Pedra Grande, o maior monumento petroglífico do Estado
Localizada no interior de São Pedro do Sul, a aproximadamente 10 Km da área urbana, a Pedra Grande é o maior monumento petroglífero (gravuras rupestres) do Rio Grande do Sul, com inscrições de mais de 3000 anos. Para o jornalista Cadré, trata-se de um local importante e que merece uma maior atenção. “A Pedra Grande já é um local pesquisado arqueologicamente. Existem trabalhos arqueológicos descrevendo os povos que viviam na região, sendo que foi uma sucessão de populações. É um local importante de ritos, de cultos e de parada, por isso que existem as inscrições rupestres ali”, destaca Cadré.

Há alguns anos, quando realizou a reportagem sobre as evidências rupestres na região, o professor percebeu a falta de sinalização indicando a Pedra Grande e também atos de vandalismo, como pichações. “A importância da preservação do local é algo gigantesco. Poderia ser um parque com visitas para as pessoas interagirem mais com a natureza. É um local forte, de boa energia. São locais que atraem o ser humano há milhares de anos. Totalmente importante para a gente entender qual é a nossa origem. A nossa origem não é de fora desse continente, muito pelo contrário, ela é daqui”, destaca Cadré.
De acordo com a diretora dos Museus de São Pedro do Sul, Francis Schirrmann, atualmente existe uma placa indicativa da Pedra Grande no local. Sobre as pichações, Francis destaca que a comunidade tem respeitado e que não foram registrados novos atos de vandalismo. Ela acredita que o trabalho que está sendo desenvolvido nas escolas do município, com foco na educação patrimonial tem influenciado na preservação. Porém, conforme Francis, as pichações já existentes não puderam ser removidas, tendo em vista que como a Pedra Grande é composta por arenito, o processo poderia danificar ainda mais o local.

Projetos de preservação em andamento
Atualmente, São Pedro do Sul integra o Grande Projeto Missões, coordenado pelo engenheiro Alvaro Medeiros de Farias Theisen, natural de Santo Ângelo e residente em Porto Alegre. O Projeto agora é regulamentado através da Lei “Fundo pró-Missões”, aprovada na Assembleia Legislativa.
Conforme a diretora do Departamento de Cultura, Mariana Binato de Souza, o projeto busca incentivo financeiro e apoio estadual para os municípios que possuem raízes missioneiras e fazem parte de alguma fase das reduções jesuíticas. “São Pedro do Sul integra a primeira fase das reduções jesuíticas, que é a Redução de São José. Existem quatro projetos dentro do Grande Projeto Missões, que se referem a Pedra Grande. Um deles é a identificação com placas e melhorias do acesso ao local. Também a reforma e restauro do cemitério jesuítico localizado na Ermida e em alguns pontos serão colocadas cruzes missioneiras, que identificam por onde essa redução passou”, destaca Mariana.
Mais informações sobre o Grande Projeto Missões podem ser conferidas no link https://grandeprojetomissoes.com.br/
A diretora de Cultura afirma ainda que estão sendo realizados esforços para trazer algumas das peças dos povos indígenas, que foram encontradas na localidade de Pedra Grande, na década de 90, durante escavações e que atualmente estão no acervo do Museu da PUC, em Porto Alegre. Também no ano de 2021, o município recebeu a visita do arqueólogo Felipe Pompeo, que realizou estudos do acervo existente no município, além de visitas técnicas na Pedra Grande.
Saiba mais
Conforme consta na obra “Arte pré-histórica na região central do Rio Grande do Sul e sua inserção no grande território rupestre ao sul do continente”, a Pedra Grande é uma laje de arenito com mais de 80 metros de comprimento, que forma um abrigo largo e pouco profundo, onde se encontra um painel de 24 metros de comprimento por mais de 2 metros de altura, onde estão os petroglíferos. Há ainda, outros dois conjuntos menores nas duas extremidades onde não existe mais proteção natural. É possível observar três técnicas distintas de gravação no abrigo da Pedra Grande: picoteamento e raspagem, polimento, broqueamento do suporte rochoso.
Os painéis gravados que existem no abrigo estão dentro de um estilo que se convencionou chamar de “estilo de pisadas”, pois os signos que mais se destacam no conjunto assemelham-se a pegadas de felinos ou aves. Esses petróglifos estão relacionados aos pequenos grupos de caçadores que habitaram o abrigo da Pedra Grande. Há, igualmente, por detrás do abrigo, um sítio cerâmico superficial que foi identificado como sendo o local da Redução de São José. É, portanto, um sítio de tradição Tupi-guarani com influência colonial espanhola. O período de funcionamento desta Redução está contido entre os anos A.D. 1633 – 1637.
O local foi parcialmente escavado em 1971, foram então realizados testes de datações radiocarbônicas para as quadrículas escavadas, o resultado mostrou três ocupações diferentes, sendo a 1ª Tradição Tupi-guarani; 2ª Tradição Umbu e a 3ª Tradição Tupi-guarani com influência colonial espanhola, ou seja, não teve uma ocupação continuada no local. Reportagem: Andressa Scherer Tormes
(Com informações disponibilizadas pelo Museu Paleontológico e Arqueológico Prof. Walter Ilha).

































































