Eu não gosto muito de ti porque quando eu era pequeninho tu entravas na casa do meu avô Bino com um rebenque e, em vez de feliz Natal, dava relhaços no assoalho. Enfiava-me em baixo da cama e só saia quando a vó Ernestina me resgatava e prometia que, se eu ficasse no seu colo, ele não me surraria. A gente ganhava presentes depois de jurar que não fazia arte, que obedeceria aos pais, que era estudioso e bem comportado. Pois é, ensinavam a gente mentir desde pequeno…
Hoje, as cartinhas pedem cestas básicas, já que poucos ganham o 13º salário e, quem ganha, tem de optar entre comprar presentes ou comida. Isto é pior que relhaço! É uma dor contínua que faz muita gente sofrer. Tudo porque São Nicolau, que era presenteiro, inspirou o Papai Noel moderno e transformou o Natal em sinônimo de dar e de receber presentes. O nascimento de Cristo passou a ser um detalhe que só é levado a sério pelos cristãos, ainda que muitos, nem lembrem Dele nas festas natalinas.
Eu gostaria de acreditar em Papai Noel, pois teria a chance de pedir coisas impossíveis, algumas empacotadas de magia, tipo milagres. Por exemplo: eu pediria que os bens públicos fossem respeitados; que, nas próximas eleições, nossos sonhos não fossem pisoteados; que os partidos deixassem de ser aglomerados de gente em busca de vantagens pessoais em função do fundo partidário (que é um deboche) e do poder político, através do qual defendem e concretizam seus interesses.
Pediria que a impunidade acabasse em nosso pobre país rico. Que os grandes e intocáveis ladrões da política e do empresariado voltassem para cadeia, de onde saíram por decisões esdrúxulas de um STF ideologizado. Para eles, não importa o crime cometido, ainda que provado exaustivamente. Importa mais a firula jurídica de que os tribunais que condenaram os ladrões em primeira e segunda instância não tinham poderes para tanto, pois estavam no lugar errado, na cidade errada. Vale mais a Vara que julgou do que os bilhões roubados, dinheiro desviado da saúde, da educação e da segurança pública.
O pior é que para estes “milagres” acontecerem seriam necessárias mudanças profundas na estrutura de leis e do sistema que permitiu o assalto aos cofres públicos, os mensalões (agora travestido de “verba parlamentar”), o propinoduto que quase quebrou a Petrobrás e a forma como os ministros do STF são nomeados.
Quando penso no fundo partidário lembro que quem paga a conta da farra dos políticos somos todos nós. Como a corda arrebenta no lado mais fraco, é o respeitável público que mata no peito a carga tributária, a desqualificação dos serviços públicos, a falta de investimentos em infraestrutura social básica, as carências na saúde pública, o desamparo da educação que, por consequência, reflete-se no desleixo das escolas.
Mas, se eu ainda acreditasse em Papai Noel, pediria um presente especial que, por ser raro, minimizaria a dor da frustração e do abandono. Pediria ao bom velhinho que, apesar da idade ter me mudado, deixando-me mais cético, lento e cheio de achaques, não me impedisse de viver o que interessa: os meus amigos, as velhas músicas, os filmes inesquecíveis, as lembranças inolvidáveis. Que o bom velhinho permita-me viver o outono da vida com dignidade, pois o importante é desfrutar o que a vida nos oferece agora, não importando as aberrações políticas em que se transformaram Lula e Bolsonaro. O importante será repartir nossas alegrias, mesmo que sejam fugazes como uma noite de Natal.


































