O programa de certificação da lã gaúcha já alcançou quase 600 mil quilos em quatro safras e começa a consolidar uma nova perspectiva para a cadeia produtiva no Rio Grande do Sul. Os resultados foram apresentados durante o 3º Dia da Lã, realizado na sede do Sindicato Rural de Santana do Livramento.
Coordenada pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), a iniciativa busca agregar valor à produção por meio da identificação, classificação e análise técnica da fibra. A proposta é transformar características como finura, rendimento e qualidade em informações que possam ser utilizadas pelos produtores no momento da comercialização.
De acordo com o zootecnista e técnico da Arco na parceria com o Fundovinos, Leonardo Santos Farion, foram certificados 120.130 quilos na safra 2022/23. O volume subiu para 190.661 quilos em 2023/24, recuou para 139.116 quilos em 2024/25 e chegou a 121.523 quilos em 2025/26. Somados, os quatro ciclos representam 571.430 quilos de lã certificada.
Para Farion, ainda existe espaço significativo para ampliar a participação dos produtores no programa. Segundo ele, parte da lã comercializada no Estado ainda não passa por análises que permitam identificar características determinantes para a formação do preço.
A micronagem, que corresponde à espessura da fibra, é um dos principais fatores considerados na avaliação. Durante o evento, foram apresentados valores de referência que chegaram a US$ 10 por quilo para lãs de 18 micra. Para fibras de 20 micra, a referência foi de US$ 8,50; 22 micra, US$ 6,50; 24 micra, US$ 5; 28 micra, US$ 2,60; e 31 micra, US$ 2,40. Os valores não incluem despesas com frete e comercialização.
A diferença de remuneração entre as diferentes classificações reforça, segundo a Arco, a importância de conhecer tecnicamente o produto antes da negociação. A separação dos lotes por características também permite apresentar ao comprador uma matéria-prima com maior precisão quanto à qualidade.
O presidente da Arco, Edemundo Gressler, destacou que a ovinocultura passou por um período de perda de importância econômica da lã dentro das propriedades. Para ele, a certificação representa uma tentativa de recuperar espaço para a fibra a partir do conhecimento técnico aliado à experiência acumulada pelos criadores.
O Rio Grande do Sul responde por mais de 90% da produção brasileira de lã com valor têxtil. Nesse cenário, a entidade considera a identificação e a qualificação dos lotes como etapas importantes para ampliar a competitividade do produto gaúcho.
Os resultados econômicos observados nas propriedades certificadas também apontam para o potencial da iniciativa. Em 2024, os estabelecimentos participantes registraram crescimento de 52,8% no valor líquido obtido com a lã e de 65,1% na receita por ovelha em comparação com o ano anterior. Os cálculos consideraram etapas como acondicionamento, análise laboratorial e comercialização dos lotes identificados.
Entre as metas para os próximos anos estão a ampliação da presença da lã certificada nos mercados brasileiro e internacional, o aumento da adesão de produtores e a formação de mão de obra especializada. A qualificação dos profissionais que atuam nas comparsas está entre as prioridades.
O programa também prevê a capacitação integrada dos trabalhadores envolvidos na cadeia e o lançamento da segunda edição do Manual de Normas de Acondicionamento. O material é desenvolvido em parceria entre o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e a Arco.
Com a certificação, a cadeia busca fazer com que a lã deixe de ser comercializada apenas como matéria-prima e passe a ser negociada a partir de características mensuráveis. A estratégia pretende aproximar produtores e mercado e ampliar o retorno econômico de uma atividade tradicional da pecuária gaúcha.
































































