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OBSTINADOS POR SALVAR VIDAS

No clarear dos meus 20 anos, assisti da Praça da Alfândega, em Porto Alegre, o prédio do Grande Hotel ser consumido pelas chamas. Foi o primeiro e único incêndio de grandes proporções que assisti, ao vivo, na vida. Mas, mais do que as labaredas fugindo pelas janelas e subindo as paredes do prédio, chamou-me a atenção e lembro até hoje da luta desesperada dos bombeiros para apagar as chamas, pois os hidrantes não tinham força para alimentar as mangueiras e a água teve de ser captada no Guaíba.  Neste local, anos depois, foi construído o Shopping Rua da Praia. Pelo que me lembro, não houve vítimas.

Ao ver pela televisão o prédio da Secretaria da Segurança Pública ser consumido pelo fogo, lembrei-me de cenas de filmes retratando Londres sendo bombardeada pelas bombas incendiárias da Luftwaffe e do incêndio que apagou um pedaço charmoso de nossa história, pois o Grande Hotel era um espécie de santuário de personalidades políticas, sociais e empresariais.

Mas, se no incêndio do Grande Hotel não houve vítimas, agora temos dois desaparecimentos de bombeiros a lamentar: o Tenente Almeida (Deroci de Almeida da Costa) e o Sargento Munhós (Lúcio Ubirajara de Freitas Munhós). Segundo declarou o coronel chefe dos bombeiros, não significa que eles estejam mortos. Não é incomum eles encontrarem pessoas com vida, em meio aos escombros, em incêndios da proporção deste da Secretaria. A esperança, segundo o coronel, é que estejam vivos porque além de estarem equipados, tinham experiência para enfrentar melhor esta trágica situação.

O que me emociona nesta tragédia, até porque quase sempre o heroísmo resulta em morte, é que nenhum dos dois tinha a obrigação de estar onde estavam. O Tenente Almeida não precisava sair do quartel onde coordenava a utilização dos caminhões de combate ao incêndio. O Sargento Munhós, que já tinha idade e tempo para aposentar-se, chegava em casa quando ouviu que o edifício pegava fogo. Os dois, no entanto, sem qualquer combinação, foram chamados por uma força incontrolável para comparecer ao local e ajudar aos colegas. Qual a explicação para isso? O que leva alguém a fechar os olhos para os perigos que cercam certas atividades como a de bombeiros, enfermeiros, médicos e até policiais? O que leva alguém a ser obstinado por uma profissão onde perder a própria vida é um risco inerente e real? O que há de diferente e de inusitado no DNA destas mulheres e destes homens?

Sem dúvida, todos eles gostam de gente. E, isso não é tão comum como se possa imaginar. Muitos anos atrás, num curso, ouvi o professor dizer que a primeira grande qualidade do vendedor e do prestador de serviços era a de gostar de gente. Gostar de atender. Estar pronto para servir. Ser empático! O fato é que gostar de gente não dá nas macegas!

Gostar de gente é um jeito de ser tão precioso que deve ser uma das condições sine qua non para alguém ingressar no corpo de bombeiros. É preciso muito amor para arriscar a vida por quem não se conhece e até, por quem nem reconheça o seu valor como profissional. Tanto o Tenente Almeida quanto o Sargento Munhós não precisavam estar lá. Mas estavam! Queriam ajudar seus colegas e acabaram sendo engolidos pelas circunstâncias do incêndio.

O Dr. Google, meu incansável mestre, ensinou-me que os seres humanos trazem impressos na base de suas mentes modelos de comportamento e formas de se relacionar com o mundo que, às vezes, extrapolam a própria segurança pessoal.

O incêndio do Grande Hotel queimou capítulos importantes da história do Rio Grande do Sul. O incêndio da Secretaria da Segurança mostra-nos a necessidade de valorizarmos nossos heróis anônimos que na solidão de suas atividades correm riscos para que possamos ter uma vida melhor.

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