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MUDANÇA É PRA GENTE NOVA

No momento em que a Russia invade a Ucrânia e a população civil sofre as consequências de uma ação militar de grande escala; quando as famílias, em especial as crianças e os idosos, fogem em direção à Polônia, todos os demais assuntos apequenam-se. Mas, a vida continua e resta-nos torcer para que Putin cumpra a sua palavra de desocupar a Ucrânia tão logo seja “eleito um novo governo”. Ou seja, alguém que não namore com a OTAN e que seja capaz de manter o status ucraniano de país tampão de Moscou. Não esqueçam que foi através da Ucrânia que Napoleão e depois Hitler chegaram até as portas de Moscou. O problema é que, normalmente, as promessas de políticos não são cumpridas. Imaginem quando estas promessas são feitas no entrevero de batalhas, quando é imperioso manter imobilizadas as forças que poderiam ajudar o pais invadido. Nestas horas, como diria Dilma, tudo é permitido, principalmente, mentir!

Nestas alturas do campeonato é até sem fundamento falar de probleminhas minúsculos tais como uma mudança de residência, pois a seca continua a maltratar o Rio Grande e Leite não se decide a trilhar o caminho alternativo entre as aberrações Lula e Bolsonaro.

O fato é que estou em meio a uma mudança e, desde já, aviso: isso não é façanha para velhos! Eu e os meus cachorros continuamos perdidos entre caixas a serem abertas, sacos de roupas atrapalhando pelo caminho, a mulher bronqueada porque o fio que liga a TV sumiu e, sem internet, adios Neteflix. E borboleteando pela casa está o Nelsinho montando cama e guarda roupas, o Marcelo “faz tudo” que, como o nome indica, fazendo o resto. A situação e a dor nas costas e solas dos pés é tão crítica que morro de inveja do seu Narciso, personagem de Odoniran Barbosa na letra de um samba, quando declara “minha mudança é tão pequena que cabe no bolso de trás”.

Quero esclarecer que deixar São Pedro, para mim, foi uma grande perda. Além de sair de uma casa que construí com todos os meus defeitos deixo de conviver com pessoas que conquistaram o meu respeito e a minha amizade.  

Nos 12 anos em que aí morei conheci gente amiga, um povo trabalhador, uma cidade limpa com baixos índices de criminalidade e todas as vantagens de uma cidade pequena: sem flanelinhas, podendo-se estacionar perto do local de destino, estar próximo de qualquer lugar que se queira ir, de andar de bermudas e chinelos (no verão) sem escandalizar ninguém, pois está claro: em São Pedro as pessoas valem o que são e não o que tem ou aparentam ter. Se numa cidade grande nos transformamos em fantasmas, até porque ninguém conhece ninguém, às vezes, nem os vizinhos, nas cidades pequenas as pessoas adquirem uma identidade, pois tem rosto, nome e até apelidos. A gente se reconhece, se olha nos olhos! Várias vezes dormi com a casa e o carro abertos e outras tantas esqueci a chave na fechadura e consegui sentir-me seguro numa casa sem grades. E, quem queira usufruir de coisas outras, Santa Maria, que faz parte da grande São Pedro, está ali.

Pois tive de mudar-me porque, como já disse, chega um momento da vida em que a gente deixa de se mandar. Aconteceu que antes do Natal a Rosângela desmaiou e, ao cair, bateu com a cabeça na pia. Como é comum nestes momentos, liguei para o SAMU e o atendente queria saber o número do CPF e da carteira de identidade, informações “médicas” sobre as causas do desmaio e, incrível, queriam que eu a colocasse ao telefone. A todas estas ela desmaiada, estirada no piso. Restou mandar o atendente para “aquele lugar”, correndo o risco de ser processado por desacato e chamei os Bombeiros. Em cinco minutos eles estavam na minha casa e resolveram a questão!

Evidente, os meus filhos ficaram sabendo da ocorrência e, no Natal, recebi uma intimação: ou a gente voltava para Porto Alegre onde mora meu filho ou iria para Montenegro, onde a minha filha reside a alguns anos. Caso contrário, eles me “interditariam”! O argumento foi irrefutável, até porque eles rasgaram “elogios” certeiros e axiomáticos, tipo: “pai, tu és um velho caquético (76 anos) e a mãe e o Cássio precisam de cuidados. Se acontecer alguma coisa com vocês levaremos 4 horas para chegar aí!” Bueno, diante de tais argumentos, juntei os tarecos e me “bandiei” para Montenegro.

As mudanças, ainda que estressantes, às vezes vem para o bem. O fato é que meus filhos tem razão e, entre outras vantagens, virei UBER dos meus netos (levar e buscar no colégio). Tem coisa melhor na vida? Nem mogango com leite! Os velhinhos da Ucrânia estão fugindo para a Polônia, eu, sortudo como sempre, estou mudando para Montenegro. Notaram a diferença?

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