Esta semana estive em São Paulo das Missões, na região noroeste do Estado. Cidade pequena, cerca de 6 mil habitantes, cercada de outras cidadezinhas anunciadas por placas ao longo da estrada. Nomes pouco conhecidos de quem vive em outras regiões do Rio Grande, tais como Campina das Missões, São Pedro do Butiá, Roque Gonzales, Salvador das Missões, Cândido Godói, Ubiretama, Bossoroca. Pareceu-me que São Luiz Gonzaga é a cidade mais importante daquela micro região.
Enquanto viajava, lembrei de personagens que conheci e que nasceram e viveram naquela região, tais como Olívio Dutra, Jayme Caetano Braun e Noel Guarany.
Olívio Dutra, que chegou a governador do Rio Grande do Sul, a quem tive o privilégio de conhecer pessoalmente, nasceu em Bossoroca e graças a ele militei no PT quando ainda o partido engatinhava. Por conhecê-lo, respeito a pureza de seus ideais, a sua integridade e o seu caráter. Estas qualidades, diga-se de passagem, não são comuns em se tratando de políticos petistas.
Jayme Caetano Braun que embalou sonhos sonhados na minha infância gaudéria, também era missioneiro. Na última vez que o vi, eu estava jantando num restaurante em Porto Alegre (A Pulperia, se não me engano, ali no largo do Zumbi dos Palmares) quando ele chegou, todo de branco (bombachas, botas, guaiaca, boina e lenço), como se quisesse combinar a pilcha com os seus cabelos e o bigodão bem cuidado. Com um olhar de posseiro e com a confiança dos velhos guerreiros, devidamente acompanhado de uma prenda linda e bem mais moça do que ele, aboletou-se numa mesa ciente de sua importância e da idolatria que cercava a sua figura que, graças ao seu talento de payador, conquistou um lugar de honra na cultura gauchesca. E ali ele ficou, como um “cuiudo véio”, alardeando para o mundo que no seu lombo de payador, que nunca se acertou com os arreios, naquela altura da vida só aceitava ser montado pelo sereno e, talvez, pela prenda linda que o acompanhava.
Noel Guarany, que nasceu em São Luiz Gonzaga e morreu em Santa Maria, em um de seus poemas anunciou ao mundo que quando se punha a cantar, no compasso de “la viguela”, era “el ave solitaria que com el cantar se consuela”.
Pois minhas lembranças se embaralhavam com as paisagens que se sucediam ao longo das estradas: grandes lavouras de soja sofrendo com a falta d’água, alardeando que o espírito missioneiro, mais do que nunca, teria de inspirar a luta de tantos que tanto perderam e que muito ainda terão de lutar. A jornada será longa e sofrida!
Ao longe vi uma plantação com um pivô que, em princípio, asseguraria uma irrigação salvadora. Mas, na medida que me aproximava constatava que a soja não se desenvolvera. Concluí que de nada adianta o pivô se não houver água. O fato é que açudes e barragens agonizavam. Tratores cavavam poços nas canhadas. Rios se transformaram em filetes ligando poças d’água. Sangas e arroios exibiam seus leitos nus. Logo, logo, as gentes urbanas começarão a sentir no bolso a queda da produção, seja de grãos, seja de proteína, em especial, do leite.
Bilhões de reais deixarão de circular no Estado. Este dinheiro que irrigaria as atividades industriais e comerciais, gerando empregos e milhões de impostos, fugiu pelo ralo. Dizem os especialistas que La Niña é a grande culpada por tanta desgraceira. Meteorologistas afirmam que tudo é consequência das frentes frias vindas da bacia do Rio da Prata que não conseguiram avançar pelo Rio Grande. (Isso me fez lembrar da vó Carolina que culpava os correntinos por tudo de ruim que acontecia no Rio Grande). Pois, que tudo isso sirva para despertar a consciência ambientalista, pois a natureza, sempre que agredida, responderá com força e sem piedade, sem qualquer possibilidade de acordo. Que este aperto seja um alerta para não se desperdiçar um recurso tão precioso quanto a água e que se invistam em meios para armazená-la, pois, evidentemente, daqui um pouco outras secas virão.


































