Na coluna anterior apresentei como os eventos climáticos extremos, traduzidos nas enchentes e estiagens que castigaram o Rio Grande do Sul, expuseram as fragilidades históricas no planejamento e na infraestrutura das nossas cidades.
Diante do alerta real de um novo episódio de forte intensidade do fenômeno El Niño entre 2026 e 2027, encerrei com uma provocação necessária: os nossos municípios estão preparados para mudar essa trajetória?
A resposta para essa pergunta passa, obrigatoriamente, por uma análise que vai além do desastre ambiental e social; ela toca diretamente no bolso do cidadão e no caixa das prefeituras. A verdade nua e crua é que não mudar de trajetória custa caro. Muito caro.
Na gestão pública, existe uma armadilha invisível chamada “reconstrução corretiva”. Pense na estrutura de uma casa: ignorar uma pequena goteira no telhado para economizar no conserto imediato é um péssimo negócio, pois, a longo prazo, a estrutura apodrece e a reforma custará dez vezes mais. É exatamente isso o que ocorre com os municípios de pequeno e médio porte quando ignoram as mudanças climáticas.
Quando uma forte enxurrada destrói bueiros, rompe pontes rurais e arranca o asfalto, o município é obrigado a decretar situação de emergência. O dinheiro público que deveria ser canalizado para a melhoria dos postos de saúde, ampliação de vagas em creches ou modernização das escolas precisa ser desviado às pressas para refazer o básico. Gastar o orçamento para reconstruir o passado impede a cidade de investir no seu futuro.
Essa conta não fica restrita aos gabinetes da prefeitura; ela viaja pelas estradas de chão e chega à mesa de cada morador de São Pedro do Sul e região. Se as vias rurais sofrem danos recorrentes, o escoamento da produção do nosso agronegócio é severamente afetado. O produtor rural enfrenta perdas na safra pela estiagem e, quando consegue colher, encontra dificuldades logísticas para transportar. Menos produto no mercado e maior custo de transporte geram uma consequência matemática: a inflação dos alimentos. O preço do arroz, do feijão e do leite que sobem no supermercado são reflexos diretos dessa engrenagem.
A “injustiça ambiental” que mencionamos anteriormente, onde as populações mais vulneráveis sofrem primeiro com a falta de saneamento e drenagem, se desdobra também em uma injustiça econômica, corroendo o poder de compra de quem menos pode.
Portanto, aplicar os conceitos de governança e sustentabilidade (ESG) e cumprir as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU não são meras vaidades ecológicas ou exigências burocráticas. Trata-se de pura responsabilidade fiscal. Cada real investido hoje em desassoreamento de rios, planejamento territorial e bueiros inteligentes poupa múltiplos reais em ajuda humanitária e reconstrução amanhã.
No século 21, a verdadeira responsabilidade fiscal é indissociável da responsabilidade climática. Continuar gerindo as cidades como se o clima do planeta fosse o mesmo de trinta anos atrás não é apenas um erro científico; é um terrível negócio para a economia local.
Por Sylvia Salla Setubal – Doutora em Ciências do Ambiente. Docente do IFFar Campus Jaguari. E-mail: [email protected]


































